Em um mundo hiperconectado, onde a informação circula em velocidade vertiginosa, uma ameaça silenciosa se impõe como uma das mais urgentes a serem enfrentadas em escala global: a desinformação. Essa é uma das conclusões do Global Risks Report 2025, publicado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF) em 15 de janeiro deste ano. O estudo, baseado na opinião de cerca de 900 especialistas de diversas áreas e países, aponta que a proliferação de conteúdos falsos e enganosos é, pelo segundo ano consecutivo, o risco mais preocupante para os próximos dois anos.

UM ALERTA MUNDIAL: RISCOS ESCALAM, E A VERDADE ESTÁ EM XEQUE
A edição de 2025 do relatório consolida uma visão inquietante sobre os desafios que o mundo enfrenta a curto, médio e longo prazo. Entre os 33 riscos avaliados, a desinformação figura no topo da lista de preocupações de curto prazo. E por que isso importa tanto? Porque está diretamente ligada à erosão da confiança nas instituições, ao enfraquecimento da coesão social e à distorção de processos democráticos.
Não se trata apenas de boatos inocentes ou fakenews isoladas. A desinformação contemporânea é sofisticada, planejada e distribuída por uma variedade de atores, com objetivos que vão desde ganhos políticos até desestabilização econômica. É por isso que o relatório considera esse fenômeno não apenas um problema informacional, mas uma ameaça estrutural à estabilidade global.
O documento destaca que a desinformação pode “afetar as intenções dos eleitores; semear dúvidas entre o público sobre o que está acontecendo nas zonas de conflito; ou manchar a imagem de produtos ou serviços de outro país.” (Leia o relatório na íntegra)
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E REDES SOCIAIS: O COMBUSTÍVEL DA DESINFORMAÇÃO
Não é novidade que a inteligência artificial (IA) está transformando nosso cotidiano. Mas o que acontece quando ela é usada para manipular percepções? O relatório alerta que ferramentas como IA generativa (GenAI) — capaz de criar textos, imagens, áudios e vídeos realistas — estão sendo exploradas por atores mal-intencionados para amplificar conteúdos enganosos. De grupos organizados a indivíduos isolados, a automação está permitindo que campanhas de desinformação ganhem escala inédita.
Essas tecnologias potencializam o que já era um problema. Hoje, qualquer pessoa com acesso a ferramentas de IA pode produzir um vídeo falso de um líder político fazendo uma declaração bombástica. E não se trata apenas de produção de conteúdo: as redes sociais amplificam essa difusão através de algoritmos que priorizam o engajamento, não a veracidade.
CLIMA, CONFLITOS E DIVISÕES: OS RISCOS CONECTADOS À DESINFORMAÇÃO
Será que a desinformação anda sozinha? Definitivamente, não. O relatório revela que ela está interligada a outros riscos de alta gravidade: eventos climáticos extremos, guerras entre países e polarização social. Fenômenos que, além de causarem impactos diretos, são constantemente agravados por narrativas falsas que se espalham pelas redes, distorcendo fatos e gerando confusão.
A volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos é um exemplo citado de como lideranças políticas podem contribuir com esse cenário. Durante seu discurso de posse, o republicano voltou a disseminar informações falsas sobre fraude eleitoral, migração e políticas ambientais, reacendendo tensões internas e externas em um momento delicado.
O LONGO PRAZO NÃO ESTÁ A SALVO: TECNOLOGIA E CIBERATAQUES NO RADAR
Embora a desinformação lidere os riscos de curto prazo, ela continua presente nos cenários de médio e longo prazos, ainda que sob outras formas. O crescimento acelerado das tecnologias digitais e a dependência dos sistemas informacionais fazem emergir preocupações relacionadas à segurança cibernética, ciberespionagem e impactos da própria IA.
A confiança pública na mídia tradicional também vem em queda livre: apenas 40% das pessoas em 47 países afirmaram confiar na maioria das notícias. Um dado alarmante, que indica a necessidade urgente de reconstruir as pontes entre informação confiável e o público.
COMO ENFRENTAR A ERA DA DESINFORMAÇÃO?
A era da desinformação não é apenas um desafio tecnológico — é uma crise civilizatória. E como toda crise, exige resposta coordenada, conhecimento atualizado e ação coletiva. O Global Risks Report 2025 propõe caminhos concretos para enfrentar essa ameaça sistêmica que atravessa democracias, mercados e vínculos sociais.
Um dos primeiros passos é investir, de forma robusta e contínua, na capacitação de quem desenvolve e utiliza tecnologias de inteligência artificial. Programas de formação voltados a desenvolvedores, cientistas de dados e formuladores de políticas públicas devem ser atualizados com frequência, incorporando práticas de justiça algorítmica, ética digital e avaliação de impactos sociais. Não basta dominar ferramentas: é preciso compreender suas consequências.
Ao mesmo tempo, é essencial ampliar os investimentos em alfabetização digital para toda a população. Isso significa ensinar, desde cedo, como funcionam os algoritmos das redes sociais, como identificar tentativas de manipulação e como proteger dados pessoais. Iniciativas nesse sentido não apenas aumentam a segurança individual, como fortalecem a confiança coletiva nos espaços digitais.
Outro pilar fundamental está na criação de estruturas de governança mais transparentes e responsáveis. Conselhos multidisciplinares com especialistas em tecnologia, direito, ética e comunicação devem atuar na supervisão dos sistemas de IA — avaliando riscos, propondo diretrizes e garantindo o respeito aos direitos humanos.
A transparência também precisa ser prática. Conteúdos gerados por inteligência artificial devem ser claramente sinalizados, por meio de marcas d’água, etiquetas ou outras tecnologias de rastreabilidade. Essa é uma medida essencial para preservar a autenticidade das informações em circulação.
Por fim, o fortalecimento do jornalismo profissional e das iniciativas de checagem de fatos é mais urgente do que nunca. Em um cenário em que 6 a cada 10 pessoas desconfiam das notícias que consomem, recuperar a credibilidade da informação passa por apoiar quem se dedica à apuração rigorosa e à busca pela verdade.
E AGORA? O QUE ESPERAR DO FUTURO?
O cenário é desafiador. Com a intensificação de guerras, o avanço da crise climática e o enfraquecimento da democracia em várias partes do mundo, a desinformação se torna uma engrenagem perigosa na máquina de instabilidade global. E a pergunta que fica é: como os países — e nós, cidadãos — vamos reagir?
Investir em políticas públicas que promovam integridade da informação, educação crítica e regulação eficaz das plataformas digitais é essencial para garantir a sobrevivência da democracia e da verdade.
O relatório do Fórum Econômico Mundial funciona como um grande alerta. Cabe às lideranças, às instituições e à sociedade como um todo transformar esse alerta em ação.
A pergunta que fica é: estamos preparados para agir com a urgência que o momento exige? A resposta deve ser coletiva. Proteger a verdade é proteger a democracia — e isso começa com cada um de nós.
